
Acreditei ser um momento interessante para revisitar as discussões a respeito da crise sistêmica do capitalismo e suas relações com o desenvolvimento recente da economia global. Agora que a falência da General Motors (GM) e a morte de Michael Jackson (e nem ela!) já não “ocupam tanto” a atenção dos noticiários internacionais, digo que elas tem algo em comum. Tanto a GM quanto Michael Jackson tiveram seus anos dourados durante os anos 1980/90. Ambas “praticamente morrem” em 2009. Não podemos nos esquecer de um aspecto central: a conjuntura do capitalismo que atravessamos é resultado de uma reestruturações na política internacional à partir do fim dos anos 1970. Os EUA tiveram (e têm) papel central em sua elaboração e efetivação (e em suas adaptações), e possuem a mesma responsabilidade referente aos novos rumos do capitalismo no mundo pós-2008.
Agora que a “poeira baixou”, creio que seja uma boa oportunidade para falar sobre crise. Nos últimos meses fomos guiados a formulação de análises altamente insatisfatórias. O que vimos foi uma incapacidade dos ditos “analistas de política internacional” (que se reproduzem em progressão geométrica por aí...) em organizar um arcabouço teórico lúcido e minimamente preciso para dar conta das contradições históricas e “naturais” do Capitalismo. Buscarei aqui, de maneira breve e nada ambiciosa, apresentar algumas das considerações que creio serem centrais para interpretarmos o fenômeno, que, ao contrário de Jackson, não morre em 2009.
Primeiramente chamo atenção para a contextualização histórica dessa crise. Ao contrário do que se disseminou nos noticiários em grande parte do planeta, essa crise não começa com uma “bolha de crédito” imobiliário que estoura em 2008. Ela faz parte, de fato, de uma “ética anglo-saxã” do capitalismo contemporâneo, fortemente presente a partir dos anos 1980 e em construção desde meados dos anos 1970, pós primeiro choque do petróleo de 1973. Não só nos EUA, a financeirização do sistema de produção capitalista atingiu vários setores, dentre eles, o imobiliário. De lá para cá, o capital fictício ganhou espaço dentre os grandes investimentos internacionais. Tal financeirização foi um “remédio” para a superação de um Estado norte-americano altamente deficitário no começo dos anos 1980. Ela foi também a responsável pelo seu “adoecimento”, talvez causado por uma “super dosagem” previsível na natureza da reprodução do capital já em O Capital, de Marx.
Devido à alta complexidade que ganhou o capitalismo contemporâneo, dentre as mais variadas formas existentes de sua reprodução, este sistema, natural e historicamente, desvincula a acumulação capitalista de um processo produtivo real, visível. O que se vê é não é uma mutação sistêmica. É, em si, resultado da própria dinâmica do capitalismo enquanto produto das relações sociais e de poder, em construção constante. Não há nada novo. Esse processo está dentro de sua lógica própria.
Uma segunda consideração faz referência a natureza dessa crise. Ela é uma crise Estrutural do capitalismo, por isso, diferente daquelas ocorridas nos últimos 40 anos, de natureza conjuntural. É diferente também daquela ocorrida nos anos 1930, ocasionada mais pela “mudança de eixo” da economia global da Inglaterra para os EUA, e do novo caráter de suas políticas industriais. Alí, a necessidade de um ajuste entre a reestruturação do parque industrial norte-americano (e sua expansiva capacidade produtiva) com a assimilação de novos mercados se fez necessária. Do outro lado do atlântico, uma Europa minada pela instabilidade política e pela efervescência dos nacionalismos, grande parte causadas pelos impactos da primeira grande guerra, com uma indústria em obsolescência e uma necessária reorientação de suas políticas econômicas.
Essa crise é estrutural por apresentar a essência das contradições do capitalismo, por demonstrar uma “impotência” das políticas formuladas pelas lideranças internacionais frente a dinâmica própria do sistema. O diálogo internacional mostra-se insuficiente. Ele dá atenção a variáveis que apenas postergam um “ajuste” da atual situação. Exemplo disso é a tentativa, através da injeção de dinheiro público, em sustentar um sistema financeiro “viciante” e irracional da própria lógica do capitalismo. Esse sistema carece, necessariamente, de uma reforma vital. Apesar de aparentemente distante, acredito que essa reforma esteja em plena elaboração e análise, e já mostra alguns sinais de alteração.
Fazendo um link com uma terceira consideração, essa elaboração certamente emergirá como resultado das relações internacionais lideradas pelos EUA. O peso das políticas industriais daquele Estado não deixará de ser elemento chave para a superação da atual recessão global. Concomitantemente, os resultados práticos de suas relações políticas com as economias asiáticas, sobretudo a China, serão elementares.
Isso porque grande parte dos investimentos das últimas décadas em produção industrial e inovação tecnológica estão assentadas nas economias do pacífico. Alguns esforços no continente europeu (referente à informatização e modernização de setores tradicionais) viram-se golpeados com a insuficiência dos investimentos públicos e privados pelas instituições bancárias regionais. Estas, sustentadas substancialmente pela Alemanha em sua escalada pós-unificação, sendo o país da Europa com maior capacidade de capital para uma expressiva alteração nas políticas econômicas do continente. O Euro e os altos índices de Investimento Estrangeiro direto deste país determinam, juntamente com os EUA, a dinâmica comercial dos territórios.
Na América Latina, o Brasil lidera os investimentos em pesquisa, direcionando sua atenção para as novas tecnologias em bicombustíveis. Ele “torce” pelo surgimento de uma indústria automobilística “pós-moderna”, pós-petróleo. Com um mercado interno em crescente expansão, sua política internacional contribuirá para o fim da crise de uma forma inexpressiva, orientando suas iniciativas mais para a permanência de uma estabilidade econômica interna – através, sobretudo, da assimilação de investimentos estrangeiros em setores relativamente rentáveis perante o restante do mundo -, a manutenção de um parque industrial gerador de empregos (mesmo que não modernizados) e uma difícil relação comercial com os seus vizinhos, causadas pela evidente assimetria dentre as políticas econômicas nacionais. Ou seja, a resposta à recessão internacional, com traços graves no centro, sairá “de lá mesmo”, como resultado de suas relações de poder e na harmonia estabelecida na disseminação de seus interesses perante os “Estados mais capazes”.
Um quarto aspecto, fazendo referência à algumas leituras (mais que valiosas) do analista de política internacional José Luis Fiori (Professor do programa de pós-graduação em Economia Política Internacional da UFRJ),é que temos a impressão de que as “hecatombes” ocorrem sempre durante na nossa existência, as nossas análises. Um erro. Essa crise não representa uma ruptura no sistema capitalista. Em outras palavras: o capitalismo não acaba em 2008 e nem vê data próxima para tanto. Demonstra suas contradições e fragilidades, mas, enquanto nada de mais funcional e utilitário existir, ele continua a imperar. Aliás, esse sistema representa um resultado político e social das relações humanas ao longo dos séculos. Nada estático, nada cíclico. Tudo muito imprevisível, porém, minimamente interpretável se observado sob uma ótica não utópica. Até porque, para a formulação da política internacional pouco importa o futuro, o abstrato. Importa a lógica sistêmica do capital, a observação histórica, a especificidade territorial e material dos casos analisados e, de maneira central, a política de poder (sua natureza, condicionantes e resultados) estabelecida pela hegemonia global.
Uma quinta abordagem que se faz necessária diz respeito aos verdadeiros impactos dessa crise para o desenvolvimento dos territórios, sobretudo, referente à importância daquilo que chamo de “inovações” nas instituições políticas. A diversidade e amplitude que tomaram as instituições políticas, do local ao global, em suas mais variadas formas, remodelaram a organização do desenvolvimento econômico internacional. Nos últimos anos, essas alterações mostraram-se importantes para a configuração da “nova” economia global e reorientaram a concepção de desenvolvimento nacional, que, inevitavelmente, devem pautar-se na assimilação de experiências internacionais de crescimento econômico, bem articuladas, e que mantenham a capacidade de organização dos elementos internos de produção industrial.
É importante lembrar que essa nova lógica do capitalismo, num momento de financeirização, representa um resultado da correlação de forças presentes na construção da hegemonia global no pós-1970.
Essa foi a moralidade construída ao longo desses anos, onde o conservadorismo político (regulação e pragmatismo econômico) necessariamente teria que dar lugar à uma “modernização” política nacional, mais aliada ao capital internacional. O desenvolvimento dos Estados tornou-se sinônimo de estreitamento dos vínculos com o investimento estrangeiro. As novas instituições políticas, sobretudo as locais (como alguns casos observáveis no território europeu) relativizou os impactos da concorrência global em seus territórios, através da constante presença do Estado como “tapa buraco” dos estragos mais amplos. Porém, essas inovações políticas tiveram uma vida útil que, sem dúvida, foi altamente afetada com a insuficiência dos investimentos no pós-2008, e até antes dele. Isso parece ficar evidente na instabilidade política presente no leste europeu, vista a forte dependência de suas economias perante o grande projeto de parcerias público-privadas, emergidos dos programas operativos da União Européia nos últimos 30 anos, que não deixam de ser importantes.
Assim, esboço aqui algumas breves considerações que parecem nortear parte do debate a respeito da crise estrutural do capitalismo. Levanto um último aspecto: aquele referente aos impactos de tal fenômeno na periferia do sistema mundial. Creio que essa própria noção de “periferia” está em constante reformulação, tendo em sua trajetória teórica uma forte dificuldade em incorporar, em apenas um conceito, um contexto tão complexo de Estados nessa situação. A assimetria entre eles dificulta a consideração de uma única periferia global, assim como o “centro” também passa por mutações constantes.
Tendo isso considerado, acredito que permanece a centralidade do Estado nacional como instituição máxima da política internacional, aquele que socorre o sistema capitalista de suas rupturas mais profundas e que estabelece a política de poder de maneira pragmática, baseada nas capacidades materiais que estes agentes efetivam em suas relações internacionais assimétricas.
Acredita-se que num futuro próximo a palavra “reforma” seja a mais escutada. Isso porque ela aparecerá racionalmente como uma necessidade histórica do capitalismo, evidenciada tanto dentre as políticas industriais privadas (como já se reestrutura a GM) como as públicas. Ela será resultado das políticas de três principais países: os EUA, a Alemanha e a China. Países que mantém uma posição central visto, suas articulações políticas em construção e a primazia de suas iniciativas em contextos continentais distintos. Os EUA continuam liderando esse processo, em condescendência com a escalada global de sua supremacia incontestável nos últimos anos, mesmo que se pregue o oposto. A política de poder dos EUA parece renovar-se, constantemente. Essa crise do capitalismo, que acompanha a jornada hegemônica estadunidense do pós-guerra (com uma “nova” orientação nos anos 1970) alerta para mais uma reestruturação da política internacional. Ela manterá seus pilares fundamentais, porém, o que se espera é uma adequação dos EUA e organização de sua capacidade de incontestável de orientar os “próximos passos” do sistema. A América Latina, sobretudo o Brasil, e a Europa, sobretudo a Inglaterra, parece estar diante dessa nova orientação, visto suas aproximações políticas, diplomáticas e de complementaridade econômica, todas elas historicamente observáveis na dinâmica de relacionamento entre aqueles Estados.
E assim, encarando a política internacional como algo tão instável quanto um “pudim de passas”, penso que uma reestruturação torna-se necessária, e já em articulação. É que não deram a atenção correta à reunião do G8 na última semana, observando mais os comportamentos sociais de Obama e Sarkozy (especulando sobre as “direções” dos olhares dos dois chefes de Estado, especialmente para as participações brasileiras...). A primeira vista, foram acordos insuficientes, escassos, tímidos. Mas a política internacional parece ser algo mais dinâmico, mais sensível e adaptável. Como um camaleão.
A reorganização do capitalismo no século XXI mostra-se um desafio enorme, onde existe uma Alemanha unificada, uma América Latina conturbada e uma China mais capaz. Ah! E os EUA com uma supremacia militar, tecnológica e de mercado consumidor, tendo ainda o controle do sistema financeiro, representa um fenômeno sem precedentes de oligopolização de suas empresas em nível global, algo definitivo para seu posicionamento central. Monopolização, aliás, acentuada na crise discutida. Nada muito novo: apenas produto de algumas décadas de construção da hegemonia. Ela se dá em outros termos e em outros instrumentos que não aqueles das guerras onerosas (Será o Iraque o últimos dos erros?) e criadoras de instabilidade sistêmica.
Renan Gonçalves Leonel da Silva é estudante de Relações Internacionais na UNESP/Franca e pesquisador do CEDER/NEIC, grupo de pesquisa no qual é bolsista da FAPESP sob orientação do Prof. Dr . Agnaldo de Sousa Barbosa.